Vivemos o hoje (ou ao menos tentamos) como se as marcas psíquicas de ontem não estivessem presentes. A gente faz isso, não por maldade, mas por uma tentativa de viver melhor. Isso me faz lembrar a ideia de propósito de vida.
Mas do que estamos falando quando falamos disso?
Estamos falando que os humanos “…anseiam por felicidade, querem ser felizes e permanecer assim…” (Freud, 1930). Ou seja, estamos falando da gente.
Felicidade aqui significando a ideia de viver satisfeito, realizando intensos prazeres, como, por exemplo, alguém que passou o dia inteiro sem comer e ao final do dia é servido com seus pratos prediletos, para comer à vontade.
Veja que o próprio exemplo fala de uma grande necessidade seguida de uma estupenda satisfação. Partindo daí, fica fácil entender que se trata de uma realização episódica, momentânea. Uma vez que o sujeito realizou, matou a fome, matou também a necessidade.
É possível pensarmos que, se esse tal propósito de vida é um estado perene de felicidade, não será possível vivê-lo.
Como disse certa vez o escritor: “Felicidade é coisa muito grande. O máximo que os deuses nos concedem são momentos de alegria…” (Rubem Alves, 2014).
(Eis uma boa provocação para convidarmos uma outra palavra para a conversa: alegria. Mas vou deixar isso para um outro momento.)
Portanto, como falava, a felicidade vista dessa forma é uma coisa muito grande em relação à realidade. Não será possível encontrá-la na vida como ela é. Quando se trata da nossa imaginação e das nossas mais sinceras fantasias, aí o assunto muda, tudo se torna possível.
Mas veja, a tentativa de viver como se não houvesse marcas psíquicas é justamente um movimento humano de defesa frente aos inevitáveis desprazeres do viver. E está tudo bem a gente se defender. Faz parte. Que bom que temos certas defesas.
Parar e reconsiderar tudo isso não é o esperado, não se engane. Tendencialmente, o humano vai repetir aquilo que um dia já deu certo. Como diz o ditado popular: “em time que está ganhando não se mexe”. Assim é o nosso psiquismo: preguiçoso.
O sujeito só mexerá nesses lugares mais desconhecidos se lhe for necessário. Se a vida vai bem, esqueça, não há o que reconsiderar.
Digo isso para você que está aqui, que me lê e nutre uma expectativa de que os outros mudem sua forma de viver para se adaptarem a você. Não se engane: os seres humanos têm baixa probabilidade de mudança.
Portanto, procure viver a vida relacional de acordo com o que as pessoas, realmente, têm para oferecer. Reduza as expectativas. Não se assuste tanto com os defeitos dos outros, sabendo, aliás, que ao falar do outro você também está falando de si.
Muitos são os tipos de sofrimento, mas será que existe algum sofrimento maior do que aquele gerado entre as relações humanas? Não sei. Certamente, ele pode não ser o maior, mas está entre eles.
Se existe algo que você pode fazer, faça. Faça por si. Talvez, aí sim, exista uma possibilidade real de um sujeito se tornar mais flexível e adaptável à vida: cuidando de si.
Cuide de si mesmo, pois “…a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha no plano da ‘Criação’” (Freud, 1930).
Mas lembre-se: para cuidar de si, necessariamente, você precisará do outro.
Quanto antes você se deparar com isso e se responsabilizar pelo seu próprio inconsciente, mais tempo você terá para aprender a desfrutar uma vida boa.
Giovani Malini
Vila Velha – ES
15/08/26
Obs.: texto escrito sem inteligência artificial.
Referências:
Sigmund Freud. O mal-estar na cultura (1930). Editora Autêntica.
Rubem Alves. A grande arte de ser feliz (2014). Editora Paidós.