Sim, ou você acha mesmo que ia passar por ela sem dano algum?
Hoje, enquanto falava livremente em análise pessoal, em algum momento me deparei com a criação (ao menos pra mim mesmo) de um neologismo: IAtrogenia.
Ele já saiu endereçado para uma aplicação certeira do que eu falava. Então, não surgiu do nada? Havia contexto para tal, Giovani?
Sim. Na semana passada eu estava pensando/falando sobre o poder iatrogênico que um tratamento psicanalítico malfeito pode causar. Aquilo que Freud chamou de “análise selvagem” (1910). Aliás, se você me acompanha, já sabe que esse assunto, verdadeiramente, me implica. (Em outro momento pretendo escrever mais sobre isso.)
Enquanto pensava/falava (e só agora me dei conta de que estou tratando duas palavras como se fossem uma só, o que é ótimo, aliás) sobre o perigo que vejo nas inúmeras ofertas canalhas para formação em psicanálise, também pensava no combinado que fiz comigo mesmo antes de inaugurar esse blog. Qual? Não vou utilizar inteligência artificial aqui, não vou me dobrar à moda de fingir que escrevo algo inerrante, quando na verdade, errante que sou, escrevo aquilo que vem da(s) minha(s) cabeça(s). (Aqui, uma brincadeira inspirada pelos diversos heterônimos de Fernando Pessoa.)
Calma! É inevitável parar um pouquinho aqui e me perguntar: não seria isso um enorme contrassenso? Até que ponto seria possível usar (e dormir bem) a IA no campo do saber psicanalítico? E no campo da clínica? Não seria a própria psicanálise a propor exatamente o oposto disso, ou seja, de alguma forma ensinar e incentivar o analisante à prática da associação livre?
Vocês já sabem: muitos já trocaram o analista pelo ChatGPT, o supervisor pelo Gemini, a leitura de um livro por uma síntese (mixuruca, diga-se de passagem) oferecida pelo Claude. Sério mesmo que nessa altura do campeonato nós ainda precisamos responder o óbvio? Sim, sempre precisaremos. Então qual é o óbvio, Giovani?
Me parece que existe um elemento que foi trazido pelo método clássico da psicanálise que, mesmo com suas limitações (isso é amplamente discutido pela classe), ainda resiste e sobrevive como uma espécie de horizonte comum de um tratamento psicanalítico: a associação livre.
Todos os nossos esforços envolvendo inúmeras discussões e propostas de uma psicanálise mais contemporânea, me parecem ter um objetivo em comum: fornecer condições para que o analisante adquira a capacidade de ser… pensar, falar, brincar, sentir, sorrir, chorar… poder se expressar, independentemente da forma como isso aconteça.
Não seria, então, a psicanálise, nesse sentido, uma subversão à inteligência artificial? Não seriam as IAtrogenias exatamente esses estragos que surgem dessa interação? Aliás, existe interação ou é uma miragem?
Nesse instante sinto o melhor dos mundos: em meio à tentativa de me fazer compreender, eu escrevo (quase) como quem associa livremente. Me esqueço, temporariamente, inclusive do que estava tentando dizer nos parágrafos anteriores. Esse é um dos maiores, se não o maior prazer que eu encontro na psicanálise: uma mistura do pensar, arriscar, improvisar e falar. Isso é digno de nota, pois é exatamente assim que eu gostaria que você me lesse: um errante que, salvo pela psicanálise, pode então Giovanear.
Fazendo um esforço para voltar a pensar na IAtrogenia, sem reler o que fora escrito, lembro que dizia exatamente que este termo surgiu em meio aos meus sonhos acordados (de olhos bem fechados) que sinto enquanto analisante. Ali, após muitos anos, conquistei uma certa capacidade de falar-sonhando e sonhar-falando. Que lindo! Como sou grato à psicanálise por ter salvado também, seja lá como for, meu analista.
Obrigado, Gilberto Bruzzi Desiderio! Contigo, sigo longe dos poderes IAtrogênicos!
Como acabaram de ver, eu não consegui retomar o assunto e fui tomado por outra questão. Não me forçarei para uma releitura e continuação daquilo que, ao menos hoje, sinto que acabou. Vou considerar o fato de que fiz de tudo para tentar ser compreendido. Se não consegui, fique tranquilo, ISSO pode retornar a qualquer momento. Se não retornar, está dito.
Viva o inconsciente em flagrante!
Com o coração alegre,
Giovani Malini
Vila Velha – ES
10/08/26
Obs.: texto escrito sem inteligência artificial.
Referências:
Sigmund Freud. Sobre psicanálise “selvagem” (1910). Editora Autêntica.